O objetivo desta aula é apresentar duas pesquisas que evidenciam e discutem as múltiplas e conturbadas trajetórias escolares de alunos com deficiência, que culminam com a busca pela Educação de Jovens e Adultos – EJA.
Essas pesquisas são: Mapeamento de dez anos, de alunos com deficiência na Educação de Jovens e Adultos (TINÓS, L. M. S.; AMORIM, K. S., 2008); e Os caminhos dos alunos com deficiências à EJA: conhecendo e entendo algumas trajetórias escolares (TINÓS, L. M., 2010).
Os alunos do EJA são sujeitos compostos pela e na diversidade. São de camadas socialmente mais empobrecidas e marginalizadas: negros, idosos, trabalhadores, populações rurais, alunos com NEE, etc. Está havendo um aumento de alunos com deficiência dentro dessa modalidade de ensino.
Sobre os alunos do EJA que possuem deficiência, 43% possuem deficiência mental, e 18% deficiência auditiva. Nesta pesquisa, também foi constatado a dificuldade em definir as deficiências.
Esses alunos com NEE que estão no EJA, 51% vieram de escola especial e 26% vinham de escolas públicas.
A segunda pesquisa traz a trajetória escolar de Paula, que na época da pesquisa tinha 30 anos. Possuía uma deficiência física (diagnóstico de distonia generalizada). Cursava a 6ª série do segundo segmento da EJA, em escola pública municipal.
Dos 4 aos 10 anos, Paula estudou em uma escola especial privada. Nesta escola, Paula foi alfabetizada. Dos 11 aos 12 anos, ela estudou em outra escola especial privada.
Dos 13 aos 24 anos, Paula estudou em uma escola especial municipal, pois seus pais não podiam mais pagar uma escola particular. Nesta escola, ouve atitudes controversas. Paula disse que a escolarização não era prioridade, ela foi colocada em oficinas, enquanto ela queria estar em salas de aula, disse que desaprendeu um monte de coisa, e relatou diversas situações que denotam descriminação.
No último ano em que esteve na escola especial municipal, Paula freqüentou no contra-turno uma escola especial filantrópica.
Aos 26 anos, Paula tem a primeira experiência no EJA. A escola era próxima da casa de Paula, por isso ela não conseguiu transporte escolar. Para levá-la à escola, o seu pai também se matriculou na escola. Eles ficavam dependentes de vários fatores, como, por exemplo, se estava chovendo, etc. Esses fatores dificultavam a ida à escola, fazendo-a desistir mesmo gostando a experiência de estudar.
Com 27 anos, Paula foi matriculada em uma escola regular na segunda série do Ensino Fundamental I. Ela estudava em uma sala com crianças de 7 a 8 anos.
Paula volta a uma sala de EJA com 28 anos, no 1º segmento. Este ano foi determinante na vida escolar dela, pois ela consegue terminar o ensino de 4ª série. A professora foi importante nesta situação, porque ela foi perguntar como seria o trabalho delas juntas, e Paula deu dicas de como seria fácil o trabalho. Paula continuou nesta escola e aos 30 anos ela estava no segundo segmento.
Analisando esta trajetória, podemos constatar que, tratando-se da educação especial, as escolas não possuem uma preocupação com o tempo e certificação. Já no ensino regular, há uma falta de preocupação em avaliar pedagogicamente para saber o que ela já tinha adquirido na sua trajetória escolar; sem contar que Paula ficou na 2ª série já sabendo ler com crianças de idade muito diferente da dela. Em relação a EJA, houve uma aceitação e encaixe no perfil. Mas ainda houve dificuldades em lidar com alguns professores; outro aspecto importante é que Paula obterá uma certificação neste segmento.
Apesar do sucesso de Paula na EJA, apenas 0,42% dos alunos com deficiências pesquisados de 2004 a 2007 foram certificados. Muitos alunos com NEE não conseguem avançar nos estudos e acabam desistindo.
Nós, profissionais da educação, temos que tornar visíveis pessoas que historicamente não enxergamos, não falamos, não acolhemos e não acreditamos.